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Evangelização e leitura orante da Bíblia
Irmãos e irmãs! Estamos entrando no mês de
setembro, Mês de Bíblia. Poderá ser um período de
renovação da nossa vida cristã individual e
comunitária.
De fato, a Bíblia é uma forma de presença de Deus
no meio de seu povo. Ela nos faz ouvir a Deus, a
Ele nos conduz e nos faz conhecer seu amor. Se
estivermos abertos à ação do Espírito Santo, a
Bíblia nos fará não só ter um conhecimento teórico
da Palavra de Deus, mas também experimentar
vivamente o amor com que Deus nos ama. Essa
experiência é fundamental na vida cristã.
O Papa nos diz que a Bíblia é a história de como
Deus ama seu povo (cf. Familiaris Consortio, 12).
Não tanto a história de como nós amamos ou não
amamos a Deus, ainda que isso também esteja
registrado na Bíblia. Ela é, antes de tudo, a
história de como Deus ama seu povo, de como Deus
agiu, age e agirá na história da humanidade. Isso
significa que, se quisermos saber e experimentar
de como Deus ama seu povo, um dos caminhos mais
diretos é a leitura da Bíblia, principalmente dos
Evangelhos, que narram a culminância desse amor de
Deus por nós na pessoa de Jesus Cristo, morto e
ressuscitado. De fato, Jesus, para nossa salvação,
desceu do céu, fez-se homem, morreu na cruz e
ressuscitou dos mortos.
Um dos métodos melhores para descobrir a Bíblia
como caminho de encontro com Jesus Cristo e para
fazer a experiência de seu amor neste encontro, é
a leitura orante. Esse método usam-no muitos
atualmente. Ele vem da antiga tradição da Igreja.
Foi divulgado no Brasil pela Conferência dos
Religiosos. Mas também, o próprio Papa João Paulo
II o recomenda, quando, no documento “Igreja na
América”, de 1999, fala do modo de encontrar Jesus
Cristo na Igreja, hoje. O primeiro modo, segundo o
Papa, é “a Sagrada Escritura, lida à luz da
Tradição, dos (Santos) Padres e do Magistério, e
aprofundada através da meditação e da oração” (n.
12).
A leitura orante da Bíblia se compõe de quatro
passos, a saber, a leitura do texto, a meditação,
a oração e a contemplação.
O primeiro passo é a leitura do texto. Começa-se
pela escolha de um trecho da Bíblia, de
preferência um texto dos Evangelhos. Na leitura do
texto, podemos conhecer primeiro a letra da
Palavra de Deus, para penetrar em seguida no seu
espírito e compreender seu sentido. Por essa
razão, é preciso ler devagar, com toda atenção, e
deixar-se envolver pelo texto. Assim, ele pode
situar-nos no momento histórico em que foi
escrito, para descobrir o que Deus queria dizer ao
povo naquele tempo, o que Deus significava para
aquele povo, como se revelava e como o povo na
época reagia ao que Deus lhe revelava, isto é, à
revelação de “como Deus amava seu povo”.
O segundo passo é a meditação do texto. Na
meditação perguntamos o que diz o texto para mim,
para nós, hoje?, o que Deus quer dizer a nós hoje
através do texto lido? Na meditação, trata-se,
portanto, de tornar o texto atual e trazê-lo para
dentro de nossa vida e realidade, tanto pessoal
como social. Para melhor meditar, será bom repetir
a leitura do texto, revolvê-lo e por assim dizer
ruminá-lo e mastigá-lo, até descobrir o que ele
tem a dizer a nós, hoje.
O terceiro passo é rezar. A oração, aliás, deve
estar presente desde o início da leitura orante,
quando invocamos o Espírito Santo, a fim de que
Ele nos ilumine e acompanhe na leitura. Também a
meditação já é um pensar que vai se transformando
em oração. De fato, a meditação nos deve levar à
oração, nos deve levar a falar com Deus sobre o
que o texto nos diz. Será uma oração de louvor e
de súplica ao Deus que ama seu povo e me ama
também individualmente.
Por fim, no quarto passo, entramos na
contemplação. Os três passos anteriores terminam
assim por nos fazer contemplar a Deus, nos colocam
diante de Deus e nos fazem experimentar o mistério
de seu amor, onde as palavras já não contam tanto,
mas em que nos sentimos felizes de estar com Deus
e de provar seu amor.
Essa forma de leitura orante da Bíblia nos
qualifica, obviamente, de modo muito vivo para
anunciar esta Palavra aos outros e cria em nós o
elã missionário, o impulso de levar outros a
encontrarem-se com Jesus Cristo vivo, no Espírito
Santo. E Jesus nos conduzirá ao Pai.
01/09/04
Cardeal Dom Cláudio Hummes
-
Arcebispo
metropolitano de São Paulo
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